Fim de Sonho | Last Dream | 2013

exhibitions | exposições

Prêmio Brasil de Fotografia 2014

Espaço Porto Seguro, São Paulo, SP 2015

Festival Internacional de Vídeo Art, ((id)art_fest)
Palazzo Bonfranceschi, Chienti, Italy 2015

SIEEF 12th Congress, Zagreb, Croatia 2015

Valletta International Visual Arts (VIVA), St James Cavalier Centre, Valletta, Malta 2015

Notte Bianca | White Night Festival, Valletta, Malta 2015

Sistemas Ecos
Praça Victor Civita, São Paulo, SP 2013

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Roteiro, Direção, Sonia Guggisberg
Produção: Julia Hannud

Direção de Fotografia: Sonia Guggisberg
Montagem: Caroline Siqueira
Edição de Som: Thiago Taboada

Cachoeiras Urbanas (Urban Waterfalls) and Fim de Sonho (Last Dream) are productions based on observation of unplanned growth and urban redesign of the city of São Paulo.

In cities without planning, neglect of public space seems accepted and almost institutionalized as something that is part of a path of no return. In them, I found a large number of depersonalized spaces that had their stories stolen by constant demolitions. It can be said that witnessing the constant process of replacement of historic buildings for modern, over the years, citizens no more recognize their own city. They are subject to deformation in terms of possibilities and expectations to integrate the space they live in. Now, citizens who grew up and survived in this context have their answer. What I witnessed was a social landscape carved by wear, full of anesthetized and almost powerless citizens in relation to the space where they live. It is a process that triggers the deconstruction of urban space, with a society forced to participate in this game, a game built through manipulation of capitalist interests.Here, the testimony is in a way the city itself. In a process of no return, citizens daily witness the erasure of their history and experience a city full of gaps. They are ruins that explicitly reveal a void that bothers, where we see the erasing of the past, apparently forgotten.

Cachoeiras Urbanas e Fim de Sonho (Last Dream) são produções que partiram da observação do crescimento não planejado e do redesenhar urbano da cidade de São Paulo.

Em cidades sem planejamento, o descaso com o espaço público parece aceito e quase institucionalizado como algo que faz parte de um caminho sem volta. Nelas, encontrei um grande número de espaços despersonalizados, que tiveram suas histórias roubadas por demolições constantes. Pode-se dizer que, presenciando o constante processo de substituições de prédios históricos por modernos, com o passar dos anos, o cidadão não se reconhece mais em sua própria cidade. Fica sujeito a deformações em termos de possibilidades e expectativas de integrar o espaço em que vive.

Agora, o cidadão que cresceu e sobreviveu neste contexto apresenta sua resposta. O que presenciei foi uma paisagem social esculpida pelo desgaste, repleta de cidadãos anestesiados e quase impotentes em relação ao espaço em que vivem. Trata-se de um processo que deflagra a desconstrução do espaço urbano, junto da sociedade, obrigada a participar deste jogo, um jogo construído pela manipulação de interesses capitalistas.

O testemunho aqui é de certa forma a própria cidade. Em um processo sem retorno, os cidadãos presenciam diariamente o apagamento de sua história e vivenciam uma cidade repleta de lacunas. São ruínas que revelam explicitamente um vazio que incomoda, onde vemos o apagar de tempos passados, aparentemente esquecidos.

Last Dream is a job with images also captured in a single demolition and presenting a specific case: the end of a family history.

With scenes shot in the demolition of sheds that were part of my family history, it presents a personal, but common situation, when it comes to a city like São Paulo. The video images focus on the movement of the smoke, of the dust caused by the falls, the rest of the rest. Powder is the last fragment of the falls, floating through the air until it ends. It is a passage that shows literally the end of not just another property in the city, but the dismantling of the story that was built there. They were sheds that marked the financial rise and the family break after our father’s death in 1974.

After his death, the sheds, which supported the family and represented security and the presence of a father, cease to exist. The demolition of these sheds puts an end to this story, and definitely leaves nothing but memories.

The sound of Fim de Sonho (Last Dream) was made from demolition sounds, however, in the background, there is “a child’s voice,” that is, my sister or my brother’s voice, recorded by my father before his death, reproduces songs from the 1960s we used to sing at home. The sounds of the falling walls and buildings structure are presented along with a simple child’s voice who insistently plays his guitar, evoking the definitive end of childhood dreams. Bernd Fichtner, in a text written about this research, says:

[...] they are works, do not present something common between objects, phenomena and processes, they are works that seek the quality to understand, to see, to look. They are like metaphors that create and build relationships. The artwork metaphor works here as a “sculpting imagination.” In a process of mirroring work x public, relations are necessary for the understanding of the work of art and an understanding of ourselves as subjects in this dialogue. Precisely here art is a mirror, not because it reflects what is external to him, but to present an experience of a view, an experience that becomes our own, something that without this mirror we would ignore. It offers a chance for us to see ourselves and, in an enlarged reflection, in a social context. The power of art is therefore in its ability to represent and materialize ways of seeing and feeling reality. (FICHTNER, 2011).

Fim de Sonho (Last Dream) é um trabalho cujas imagens também foram captadas em uma única demolição e que apresenta um caso específico: o fim de uma história familiar. Com cenas filmadas na demolição de galpões que fizeram parte da história de minha família, apresenta uma situação pessoal, porém comum quando se trata de uma cidade como São Paulo. As imagens em vídeo focalizam o movimento da fumaça, do pó provocado pelas quedas, o resto do resto. O pó é o último fragmento das quedas, que flutua pelo ar até que termine. É uma passagem que mostra o fim, literalmente, não só de mais um imóvel na cidade, mas do desmanche da história que foi construída ali. São galpões que marcaram a ascensão financeira e a quebra da família com a morte do pai, em 1974. Depois de sua morte, os galpões, que sustentaram a família e representaram a segurança e a presença de um pai, deixam de existir. A demolição desses galpões põe fim a essa história, e definitivamente não deixa nada mais além de lembranças.

A sonorização de Fim de Sonho (Last Dream) foi feita a partir de sons de demolição, porém, ao fundo, há “uma voz de criança”, ou seja, a voz de minha irmã ou de meu irmão, gravadas por meu pai antes de sua morte, reproduzem músicas dos anos 1960 cantadas em casa. Os sons das quedas das paredes e da estrutura do prédio são apresentados junto com uma singela voz de criança que toca insistentemente seu violão, evocando a quebra dos sonhos infantis que definitivamente terminaram.

Bernd Fichtner, em um texto escrito sobre este trabalho depesquisa, diz: […] são obras, não apresentam algo comum entre objetos, fenômenos e processos, são obras que buscam a qualidade de perceber, de ver, de olhar. São como metáforas que criam e constroem relações.
A metáfora da obra de arte funciona, aqui, como uma “imaginação modelante”. Num processo de espelhamento, obra x público, as relações são necessárias para a compreensão da obra de arte e para a compreensão de nós mesmos como sujeitos nesse diálogo.
Precisamente aqui a arte é um espelho, não por refletir o que lhe é externo, mas por apresentar uma experiência de um modo de ver, uma experiência que se torna nossa, algo que, sem este espelho, ignoraríamos. Apresenta uma possibilidade para nós nos vermos a nós próprios e, numa reflexão ampliada, num contexto social. A potência da arte consiste, portanto, na sua capacidade de representar e materializar modos de ver e sentir a realidade (FICHTNER, 2011).