Corpo de Dobras | The body of the Folds | SESC | 1999

Galeria SESC Paulista, São Paulo, SP
curadoria | curatorship Kátia Canton

The body of the folds | by Katia Canton
This is a story of an art made of tissues, gestures and sensibility.

It began almost a decade ago, when Sonia Guggisberg devoted herself to the construction of a work structured by folding tissues. In her work the substance consistently turns into surface itself. It takes form through manipulation of malleable and monochromatic planes that, in their turn, are folded, moved, stretched.

When she began her trajectory, in 1990, the artist painted on unframed canvases, that subsequently were ripped, pierced, handled.
Gradually, painting was left behind and surfaces turned into monochromatic laboratories of expressiveness, creating a sensation of form, reminiscence of that generated by the work of Lúcio Fontana. Like Fontana, Guggisberg creates subjectivity from a spatial concept. Through an action, surfaces loose their flatness generating undulation of surprising dimension and poetry.

Expanding this notion as in a myriad of gestures that aggregate tissues and generate unusual volumes, Sonia Guggisberg sets forth on an investigation of new materials.
At first were light fabrics and tarpaulin that were initiated in a ritual of construction and geometric schemes, indirect reference to the neo-concrete and constructivist heritage of Brazilian art. The work of Guggisberg, however, appropriates this almost geometric plane to restructure and, thus, subvert it. In her universe of fabrics, the artist attests the impossibility: geometrical patterns do not consummate since organic structure and instability, emblematical of human gesture, are the source of the forms.

In those series, the artist at times capsuled fabrics in little acrylic boxes, building poetry of fragility. Protected by a transparent vial, the fabrics, bodies of puckers, were apparently spared from its inherent fragility, saved from the intrinsic swiftness of the human act that gave it form.
In a later stage, Guggisberg used nylon woven fabrics, molded and fixed directly on walls, without any frame, base or support. Ethereal and translucent, reflecting light and bending to the lightest move, the fabrics seemed to dance a delicate ballet of forms and radiance.
In this case, the work evolved as a comment on fluidness and lightness. It was as though it insinuated the spirit of a waft that generates the ethereal body, something that holds the beauty of a soap bubble.
In most recent series, the artist uses felt made from pressed sheep wool.
In contemporary art history, the use of felt alludes to the conceptual art of Joseph Beuys.

Beuys, whose art carried social, political, personal and spiritual senses, used felt as a symbol of human warmth. For him it conferred a sensation of shelter, protection and security, besides its power of redemption and healing.
Unlike Beuys, Sonia Guggisberg uses felt exclusively for its physical, material properties. Heavier, full bodied, and with the characteristic of greater opacity, felt completely absorbs light, it turns into a compact and dense mass, allowing, without tricks or illusions, the construction of new bodies of puckers.

The series in felt are of solid colors. There are reds, blacks, blues, or simply crude, revealing the impurity of its surfaces.
These bodies, compact in the use of material and colors, are distinctive for its very vulnerability. Once more the artist plunges us into an impasse: the opacity of felt is unable of structuring a body that materializes through the swiftness of a gesture.
It is from the gesture that her soft sculptures inherit form and body. Pure chance of fortune that turns into consummate fact when decisively repeated in the construction of each of her works.
In western art, the incorporation of the chance element has been used by many artists as means of pushing experimentation toward new limits to reach susceptibility beyond reason.
References in North American avant-garde, the choreographer Merce Cunningham and the musician John cage, used notions of Zen Buddhism when creating choreographic and musical sequences.

Sonia Guggisberg incorporates a wide range of casual gestures to the surface of her fabrics to fill them with humanization. They turn, in the illusion of the art, into living beings.
In its subtle bowels, the works allude to wrinkles and wearing out of the body; tells us of the fragility of the existence; comments on sensuality, delicacy and the apparent precariousness that remit to the manifold sensibility of the feminine, impregnated the very choice of the tissue, that, millenary, implies aspects of homeliness, as means of expression.
They become manifesto of the human hand that, through art, creates spaces by life circumscribed.



Katia Canton, PhD in Arts, NYU.
Curator, Museum of Contemporary Arts, SãoPaulo.

O Corpo das Dobras | por Katia Canton
Essa é a história de uma arte feita de tecidos, gestos e sensibilidade.Ela se inicia há quase uma década, momento em que Sonia Guggisberg passou a dedicar-se à construção de uma obra que se estrutura na dobra de tecidos. Em seu trabalho, a matéria consistentemente torna-se a própria siperfície , que ganha corpo na manipulação de planos maleaveis e monocromáticos que, por sua vez, se submetem a serem dobrados, movimentados, esticados.

Quando começou esse percurso, em 1990, a artista pintava telas que, desprovidas de chassis eram então rasgadas, perfuradas, manipuladas. Gradativamente, a pintura foi suspensa e as superfícies tornaran-se laboratórios monocromáticos de gestualidade, criando um sentimento de espaço , reminiscente a aquele gerado pela obra de Lúcio Fontana. Tal como Fontana, Guggisberg cria uma subjetividade a partir de um conceito espacial. Através de uma ação, as superfícies perdem sua condição plana para se criar em ondulações de dimensão e poética surpreendentes.

Desdobrando essa noção, como em uma miríade de gestos que vão incorporando tecidos e gerando inusitados volumes, Sonia Guggisberg partiu para a manipulação de novos materiais.

Primeiro foram os tecidos leves e as lonas, que eram iniciados em um ritual de construção e geometrização, remetendo indiretamente às heranças construtiva e neo-concreta da arte brasileira. A obra de Guggisberg, no entanto, apropria-se desse plano quase geometrizado para reestrutura-lo e, assim, subverte-lo. Em seus universos de tecidos, a artista atesta para uma impossibilidade: a geometrização não se consuma pois é ela a propria organicidade e instabilidade, emblemáticas de um gesto humano, que faz brotar suas formas.

Nessas séries, a artista às vezes envolvia os tecidos em caixinhas acrílicas, construindo uma poética de fragilidades. Protegidos por uma redoma transparente, os tecidos, corpos de dobras, eram aparentemente poupados de sua fragilidade inerente, salvos da efemeridade intrínseca do ato humano que os moldou.

Posteriormente, Guggisberg utilizou telas de nylon, moldadas e fixadas diretamente às paredes, sem qualquer moldura, apoio ou suporte. Tecidos etéreos e translúcidos, que refletem a luz e se curvam à menor gestualidade e manipulação, as telas pareciam dançar um balé delicado de formas e luminosidades.

Nesse caso, a obra se construia como um comentário sobre organicidades e levezas. Parecia se imbuir do espírito de um sopro que faz gerar o corpo etéreo, algo que retém a beleza de uma bolha de sabão .

Nas séries mais recentes, a artista utiliza feltros, que são feitos de lã de carneiro prensada. Na história da arte contemporanea, o uso do feltro alude à arte conceitual do alemão Joseph Beuys. O artista, que carregava a arte de sentidos sociais, políticos, pessoais e espirituais, utilizava o feltro como símbolo de calor humano. Atribuía-lhe uma sensação de abrigo, proteção e segurança, além de um poder redentor e curativo.

Ao contrário do artista Alemão, Sonia Guggisberg escolhe o feltro por suas características puramente físicas, materiais. Mais pesado, encorpado e com característica de máxima opacidade, o feltro reflete completamente a luz, ele se torna uma massa densa e compacta, oferecendo-se, sem truques ou ilusões, à construção de novos corpos de dobras.

As séries em feltro contêm cores compactas. São vermelhos, pretos, azuis. Ou simplesmente crús, deixando transparecer as impurezas de suas superfícies .

Esses corpos, compactos no uso do material e das cores, são marcados justamente pela vulnerabilidade. Mais uma vez a artista nos lança em um impasse: a opacidade do feltro não é capaz de estruturar um corpo que se torna matérico pela ação fugaz de um gesto.

É da gestualidade que suas esculturas moles herdam forma e corpo. Puro acaso que se torna fato consumado ao ser repetido decisoriamente na construção de cada uma das obras.

Na arte ocidental, a incorporação do acaso, foi utilizada por muitos artistas a fim de empurrar a experimentação na direção de novos limites como meio de alcançar sensibilidades além da razão. Referências da vanguarda norte-americana, o coreógrafo Merce Cunningham e o músico John Cage, utilizaram noções do zen budismo para decisões de sequencias de composição coreográfica e musical a serem realizadas.

Sonia Guggisberg incorpora uma gama múltipla de gestos fortuitos à superfície de seus tecidos para injetar-lhes humanidade. Eles se tornam, na ilusão da arte, entes vivos. Em suas sutis entranhas, as obras aludem às próprias rugas e desgastes do tempo sobre o corpo; falam da fragilidade da existência; comentam a sensualidade, a delicadeza e a aparente precariedade que remetem às multifacetadas sensibilidades do feminino , impregnada na própria escolha do tecido como meio, que, milenarmente, implica aspectos de domesticidade. Tornam-se manifestos da mão humana que através da arte, cria espaços circunscritos de vida.

Katia Canton é PhD em Artes pela Universidade de NY,
Curadora do Museu de Arte Contemporânea de SP.